A aventura (viagens, esportes ao ar livre, trilhas, escaladas, expedições) costuma ser narrada como território “naturalmente” masculino: risco, força, liderança e autonomia aparecem como atributos esperados de homens — enquanto mulheres são frequentemente associadas à cautela, dependência e “fragilidade”. As ciências sociais mostram que esse contraste não é biológico nem inevitável: ele é produzido por normas culturais, instituições, mídias e práticas cotidianas. Ao mesmo tempo, a própria experiência de aventura pode funcionar como um laboratório social onde identidades são renegociadas: mulheres podem ampliar repertórios de ação, confrontar julgamentos, disputar legitimidade e criar novas referências de pertencimento.
Este artigo organiza evidências sociológicas, psicológicas sociais e da geografia do turismo para explicar como estereótipos são sustentados em ambientes de aventura e por que experiências bem desenhadas (incluindo grupos de mulheres e práticas inclusivas) favorecem a ruptura desses roteiros.
A aventura como campo social “generificado”: quem tem licença para arriscar?
As práticas de aventura não são neutras: elas se organizam a partir de normas sociais que definem quem pode ocupar o risco, a liderança e a visibilidade. Este tópico analisa como gênero estrutura o acesso, a legitimidade e o reconhecimento nesses espaços. A aventura é apresentada como um campo onde desigualdades simbólicas são produzidas e naturalizadas.
Hegemonia de masculinidades e a estética do risco
A literatura de gênero descreve a masculinidade hegemônica como um padrão cultural que legitima a autoridade masculina e hierarquiza performances de gênero. Em práticas associadas ao risco e à competência técnica (mundo outdoor, esportes, aventura), esse padrão tende a se reforçar: bravura, resistência e liderança ganham status, enquanto a vulnerabilidade vira “falha”. Isso cria um ambiente onde mulheres precisam provar competência mais vezes para obter o mesmo reconhecimento.
Aventura como “espaço masculino” no turismo e no lazer
Pesquisas em turismo e geografia apontam que a aventura é frequentemente representada por narrativas masculinas, com pouca diversidade de corpos e estilos de experiência. Essa “normalização” influencia quem se sente convidada, quem se sente intrusa e quais comportamentos são considerados legítimos em trilhas, atividades aquáticas, montanhismo ou expedições.
Barreiras e “restrições” de participação para mulheres
Estudos sobre lazer e recreação ao ar livre indicam que mulheres enfrentam mais restrições (tempo, segurança, expectativas familiares, julgamentos sociais, falta de pares/mentoras, custos, acesso a equipamentos e aprendizado técnico). O resultado é menos frequência e menor progressão em especializações, não por falta de interesse, mas por obstáculos estruturais e simbólicos.
Estereótipos operando “ao vivo”: ameaças simbólicas, vigilância e autocensura
Estereótipos de gênero não operam apenas no discurso, mas se manifestam em interações cotidianas e avaliações implícitas. Neste tópico, discute-se como expectativas sociais influenciam comportamento, desempenho e permanência de mulheres em contextos de aventura. A análise evidencia os custos psicológicos e sociais dessas dinâmicas.
A lógica da “ameaça do estereótipo”
Na psicologia social, a ameaça do estereótipo descreve o efeito de estar sob risco de confirmar um estereótipo negativo sobre o próprio grupo — o que pode aumentar ansiedade, autocontrole excessivo e queda de desempenho em tarefas avaliadas. Embora o trabalho clássico tenha sido formulado em contexto educacional, o mecanismo ajuda a entender ambientes de aventura com avaliação pública (olhares, comentários, comparação técnica, provas de “coragem”).
Microinterações que comunicam “você não pertence aqui”
Em cenários outdoor, a exclusão raramente vem só de proibições explícitas; ela aparece em microinterações: instruções dadas ao homem do grupo, piadas sobre “medo”, surpresa com competência feminina, comentários sobre corpo/roupa, ou a presunção de inexperiência. A soma dessas situações produz vigilância social e pode levar à autocensura: evitar certos desafios, silenciar dúvidas por medo de parecer “inadequada”, ou desistir de atividades. Pesquisas em turismo de aventura discutem como gênero molda afetos e sensações de inclusão/exclusão no lugar.
O custo psicológico de “performar competência” o tempo todo
Quando a presença feminina é tratada como exceção, o erro vira prova de incapacidade (“mulheres não são para isso”), enquanto o acerto é visto como caso raro. Isso aumenta o custo emocional e cognitivo do aprendizado: além da técnica, a pessoa gerencia reputação. Em termos sociais, é uma forma de controle: o ambiente mantém a hierarquia sem precisar barrar formalmente. A consequência é desigualdade de permanência — quem fica precisa sustentar um esforço extra para ser considerada “legítima”.
Quando a aventura rompe roteiros: autonomia, agência e reconfiguração identitária
Apesar das barreiras, a aventura pode funcionar como um espaço de transformação identitária. Este tópico examina como vivências desafiadoras permitem renegociar papéis sociais e ampliar a percepção de autonomia e competência. A ruptura de estereótipos é entendida como um processo situado e relacional.
A aventura como experiência de agência (fazer, decidir, liderar)
Um conjunto de estudos sobre mulheres na aventura mostra que, quando a experiência é percebida como segura e apoiada, ela aumenta senso de competência, força e autonomia: navegar em ambientes incertos, resolver problemas e tomar decisões desloca a identidade de “cautelosa” para “capaz”. Isso não “apaga” o medo, mas muda o significado do medo: de sinal de fraqueza para sinal de desafio administrável.
Mulheres viajantes e o valor social da aventura
Pesquisas com viajantes mulheres em experiências de aventura apontam ganhos que vão além do lazer: expansão de repertório de comportamento, maior confiança para explorar espaços públicos e revisão de expectativas sobre feminilidade. Ou seja, a aventura pode ser um evento que reorganiza narrativas pessoais (“eu sou o tipo de pessoa que faz isso”) e, por extensão, influencia escolhas de vida e mobilidade.
A ruptura não é individual: ela depende do contexto
As ciências sociais alertam para um ponto-chave: não basta “ter coragem”. A ruptura é sempre situada — depende de infraestrutura, regras de convivência, liderança, pares, comunicação e desenho da experiência. Quando o ambiente reduz humilhação e aumenta pertencimento, a aventura vira uma prática de emancipação cotidiana; quando o ambiente reforça o “teste de masculinidade”, a aventura pode reproduzir violência simbólica.
Evidências em turismo e recreação: inclusão, pertencimento e mudanças de norma
O turismo de aventura oferece um campo privilegiado para observar disputas simbólicas em torno de gênero. Este tópico explora evidências empíricas sobre inclusão, participação e representações sociais nesses contextos. Destaca-se o papel do desenho das experiências na produção de pertencimento ou exclusão.
Sentimentos de inclusão e desenho de experiências
Trabalhos recentes em turismo de aventura destacam que inclusão não é apenas “permitir a entrada”, mas criar condições afetivas e práticas para participação plena: comunicação clara, acolhimento de iniciantes, gestão de risco sem ridicularização, atenção a segurança, e reconhecimento de diferentes estilos de aventura. Esse desenho diminui a sensação de ser “corpo estranho” e favorece permanência e progressão.
Diferenças de participação e especialização: o que os dados sugerem
Estudos quantitativos e revisões em turismo/recreação mostram padrões: homens tendem a reportar maior frequência e especialização em certas modalidades, mas isso se cruza com oportunidades, socialização e restrições. Quando mulheres têm acesso a redes, recursos e contextos seguros, as diferenças se reduzem — indicando que o “gosto” é moldado por condições sociais, não por essência.
Representações e discursos: como a linguagem reforça estereótipos
Pesquisas sobre discurso em turismo de aventura mostram que a linguagem promocional e narrativa tende a enfatizar conquistas e heroísmo em moldes masculinos, o que pode afastar públicos diversos. Um olhar “orientado por gênero” na forma de narrar (imagens, adjetivos, protagonistas, metáforas) é parte da mudança cultural: quem aparece como referência influencia quem se sente autorizado a estar ali.
Implicações práticas: como promover ruptura de estereótipos sem romantizar o risco
A ruptura de estereótipos não ocorre de forma espontânea, exigindo intervenções intencionais. Neste tópico, discutem-se estratégias sociais, organizacionais e culturais capazes de transformar a aventura em um espaço mais equitativo. A ênfase recai sobre mudança estrutural, e não apenas sobre iniciativas individuais.
Grupos de mulheres e redes de apoio como tecnologia social
Evidências sobre programas e vivências de aventura com mulheres indicam efeitos recorrentes: vínculos, aprendizagem em clima menos julgador, fortalecimento de confiança corporal e autonomia, além de menor pressão para “performar” feminilidade. Esses espaços funcionam como incubadoras de pertencimento: depois, a mulher tende a circular com mais segurança também em grupos mistos.
Formação de lideranças e cultura de campo (conduta, linguagem, tomada de decisão)
Se a liderança reforça piadas sexistas, dá instruções de forma condescendente ou trata medo como vergonha, a norma se cristaliza. Por outro lado, lideranças treinadas em inclusão (feedback respeitoso, gestão de risco transparente, incentivo à autonomia, distribuição justa de tarefas técnicas) ajudam a desarmar a masculinidade hegemônica como “padrão invisível”. Pesquisas em educação outdoor têm discutido justamente como desafiar esse modelo e criar condições para performances de gênero mais diversas.
Interseccionalidade e segurança: a ruptura precisa ser plural
“Mulheres” não é um bloco único. Experiências de aventura variam conforme raça, classe, idade, corpo, sexualidade, maternidade e território. A inclusão real precisa considerar custo, acesso, transporte, equipamentos, comunicação e políticas claras contra assédio. Sem isso, a narrativa de “empoderamento” corre o risco de virar privilégio para poucas. A literatura recente em turismo e gênero insiste nessa ampliação do olhar para além do caso “ideal” de aventureira.
Conclusão
As evidências das ciências sociais convergem para uma ideia central: aventura não é só atividade; é um campo cultural onde gênero é continuamente produzido, reforçado e, em certos contextos, transformado. Estereótipos persistem porque são sustentados por normas e micropráticas — quem lidera, quem é reconhecido, como o risco é narrado, como o erro é interpretado, quem aparece nas imagens e histórias. Mas a aventura também pode ser um espaço potente de ruptura quando oferece pertencimento, apoio e autonomia: ela reconfigura identidades e amplia a licença social para mulheres ocuparem o risco, a técnica e a liderança.
A mudança mais robusta acontece quando a ruptura deixa de ser um ato individual heroico e vira cultura coletiva: experiências desenhadas para inclusão, redes de mulheres, lideranças preparadas e narrativas diversas. É aí que a aventura deixa de ser “prova de masculinidade” e vira prática social de liberdade.
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